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Texto de Rodolfo Oliveira
Membro do Círculo

Neste texto eu gostaria de propor algumas reflexões para você que se considera um catalisador de mudanças positivas no mundo, especialmente se você também se considera um espiritualista. Após essas reflexões, abordaremos algumas considerações sobre religião, ciência e espiritualidade, para tentarmos definir melhor o que é ser um espiritualista.

Conheço pessoalmente muita gente que se considera espiritualista e acha estar contribuindo para mudanças positivas no mundo. Também tenho interagido com centenas de outras pessoas menos familiares a mim em grupos online (como o Facebook) relacionados a esse tema. É com grande pesar que percebo que a maioria dessas pessoas tem uma ideia muito irreal de si mesma, considerando suas habilidades e/ou conhecimento muito, mas muito superiores ao que realmente são. Esses são indivíduos que, em geral, se consideram despertos ou despertando, mas não podem fornecer bons argumentos para sustentar tal certeza.

A verificação racional é um processo que não comumente ressoa em suas consciências. Talvez estejam sim em processo de despertar, mas por quê trazem consigo tantas mais certezas do que questionamentos? O que é típico daqueles ainda presos a dogmas e misticismos? Qual é a origem de tais certezas? Vêm-me à mente as palavras de Sócrates e Jesus, respectivamente: “Só sei que nada sei” e “(…) então conhecerá a verdade e a verdade vos libertará”.

Aprofundando-me em minha análise, observei que a maioria dos espiritualistas de hoje demonstram sinais de “escape espiritual (spiritual bypass)”, um termo cunhado pelo Dr. John Welwood e que pode ser resumido como uma “racionalização da transcendência prematura para evitar enfrentar problemas emocionais não resolvidos, feridas psicológicas e tarefas de desenvolvimento inacabadas”. Colocando de forma simples, trata-se de achar que ações simples e que não trazem nenhuma modificação íntima nos tornam mais espiritualizados. Na verdade, cria-se farsas, máscaras de uma espiritualidade racionalizada e que está muitas vezes simplesmente alimentando nosso ego ou alterego.

Vou te dar um exemplo: o indivíduo toma alguns conceitos básicos de uma religião reencarnacionista, combina-os com o fato de que criamos com nossas mentes, adiciona alguns conceitos clichês de filosofia prática e autoajuda e, nesta miscelânea de ideias, forma sua própria espiritualidade com pouca mudança na ética pessoal e ações da vida diária, em seus relacionamentos e atitudes. No final, tudo é energia, conexão e Deus – ahhh e, é claro, não se questiona nada ou ninguém, pois isso deixa as pessoas incomodadas e/ou frustradas – afinal de contas, o equilíbrio íntimo não foi de fato atingido!

Não quero parecer sarcástico, mesmo porque eu mesmo me encaixo em algumas das descrições dadas acima com mais frequência do que eu gostaria de admitir, mas honestamente me pergunto se algumas pessoas se consideram espiritualistas simplesmente por terem lido o pentateuco kardekiano, serem vegetarianas, vibrarem pela paz no mundo e proporem perguntas como “qual é o elemento químico, número ou letra do alfabeto mais espiritual para você” em redes sociais.

Eu vejo muito desdém pela religião e pela ciência provenientes de espiritualistas que realmente não pesquisaram ou pensaram profundamente nesses conceitos. As observações que aqui apresento me fizeram ver como precisava urgentemente ser mais racional e científico em minha própria prática de espiritualidade. Tal conclusão me levou a perceber que era hora de ir além da superfície e realmente entender o que é espiritualidade (e o que ela não é).

Esse processo me fez perceber o quão importante é ouvir mais e considerar as coisas de múltiplas perspectivas. Comecei a questionar a verdadeira extensão do impacto positivo e/ou negativo que tenho no mundo e em meus relacionamentos. Então, para concluir esta introdução, gostaria de propor a pergunta: será que realmente sabemos o que achamos que sabemos sobre nós mesmos e sobre o mundo, a vida?

Após os pontos acima mencionados, acho que faz sentido começarmos por estabelecer um conceito geral acerca do que é “ciência” e “religião” antes de aprofundarmos o conceito de “espiritualidade” e estabelecermos sua relação com esses dois outros. Vamos começar pela ciência. Serei bastante sucinto, definindo a ciência como “atividade intelectual e prática que engloba o estudo sistemático da estrutura e comportamento da natureza através da observação e experiência”. A ciência, então, não precisa ser positivista, mas simplesmente atender aos critérios básicos de ter um método de estudo racional e sistemático adequado ao objeto de estudo. Nós também podemos abordar isso de uma perspectiva ligeiramente diferente e declaramos que cada efeito tem uma causa. No entanto, quando é que determinamos que todos os efeitos naturais plausíveis devem necessariamente ter uma causa física ou que a ciência deve ser materialista? Classificar (e de certa forma eliminar) todos os efeitos não físicos como sobrenaturais e explicá-los como delírio, loucura ou fraude simplesmente não pode constituir um bom raciocínio científico. Portanto, os espiritualistas podem (e devem) pensar e agir cientificamente, empregando um “estudo sistemático da estrutura e comportamento da natureza e seus habitantes”, em outras palavras, usando a razão. Desta perspectiva, ciência e religião não competem nem se opõem. Existe apenas oposição entre materialismo e espiritualidade, mas não entre ciência e espiritualidade. E, de qualquer forma, um sábio espírito nos disse pela mediunidade de Chico Xavier que o materialismo logo acabará por falta de matéria!

Agora, vamos abordar a religião. A palavra “religião” vem do latim religare, que significa “reconectar”. Assim, tudo o que nos conecta com o divino tem um elemento religioso, independentemente da existência de uma organização eclesiástica, de rituais ou o que quer que seja. Essencialmente, esse religare é uma experiência íntima e pessoal. Isso não é, no entanto, o que as religiões tornaram-se com o tempo, já que esse elemento de autonomia moral foi eliminado e continuamente substituído por criações humanas que, em vez disso, seguem um modelo heterônomo de moralidade.

A compreensão das diferenças morais e filosóficas entre autonomia e heteronomia é fundamental para um profundo entendimento do que é espiritualidade. Aqui, contudo, abordaremos esses conceitos de forma breve e objetiva, deixando a recomendação expressa de que aqueles interessados no assunto leiam o livro Revolução Espírita, de Paulo Henrique de Figueiredo; fonte crucial para algumas das reflexões que faço neste artigo, ou assistam às várias palestras desse autor no YouTube.

“Heteronomia” é um conceito de moralidade prática introduzido por Jean-Jacques Rousseau para descrever ações influenciadas por uma força externa ao indivíduo. Em outras palavras, é o estado ou condição de ser submetido, governado ou sob a influência de outrem. É o oposto da “autonomia”, que significa a capacidade de expressar livremente o arbítrio-próprio, a vontade. “Autonomia” é ter liberdade de decisão e estar livre de qualquer coerção. É claro, portanto, que todas as religiões são heterônomas. Todas elas contêm um sistema de crenças e conduta moral com estrutura de recompensa e punição com pouco ou nenhum espaço para interpretações individuais.

Ok, mas porque o entendimento das diferenças morais entre autonomia e heteronomia é tão crítico para a compreensão do significado de espiritualidade? É porque o sistema heterônomo é baseado na coerção, competição e privilégio. Não há espaço para múltiplos caminhos, para expressões da individualidade, e cooperação. Somos capacitados segundo um modelo educacional que propõe alguns poucos caminhos possíveis. Ao escolhermos um caminho, fica cada vez mais difícil mudar. Competimos por toda a vida. Somos treinados desde sempre a vencer a todo custo e muito pouco motivados a cooperar entre nós, afinal, há apenas algumas oportunidades e nem todos serão contemplados.

Antes que refute os pontos que apenas brevemente apresentei, pergunte-se, é assim que funciona no mundo espiritual? Será que ele funciona de forma heterônoma, ou seguiria padrões mais autônomos? Por aqui, no entanto, todos seguimos um caminho mais ou menos definido pelo sistema, afinal, nos formamos e já temos que arrumar algum emprego para “tocar a vida”! Mudar é difícil e arriscado. Sem entrar em muitos detalhes, podemos dizer que todas as nossas instituições seguem tal modelo baseado na coerção, competição, poder e egoísmo.

Se você seguiu o meu raciocínio, então está começando a entender que os conceitos de “heteronomia” e “autonomia” têm tudo a ver não só com espiritualidade, mas também política, ética e a própria base de como nos organizamos como uma sociedade. Bem compreendida, a autonomia da consciência é o fundamento da boa nova trazida por Jesus e reforçada pela doutrina dos espíritos. Por analogia, o que se atingirá numa futura comunidade sustentável é o auxílio mútuo, exercício da fraternidade que só pode ser exercido voluntariamente (por escolha autônoma) como um dever moral. A liderança então, mais do que nunca, tem a ver com capacitação e merecimento e não com poder. Os fortes (de espírito) auxiliam, lideram os fracos, sem oprimi-los.

É assim, portanto, que concluo que indivíduos despertos ou em processo de despertamento são aqueles que pensam de forma mais autônoma, com uma espiritualidade racional. São os que argumentam e questionam as coisas, de forma racional e fraterna. Esses são fortes e livres por natureza, já não precisando de bengalas morais e espirituais. São desses espíritos que virão reformas, já que questionam as formas atuais de organização do mundo. Você pode também fazer parte desse processo.

As revoluções mais profundas que trarão um mundo de regeneração dependem da realização em massa desse processo. A crise que enfrentamos em todos os aspectos da nossa sociedade atual (econômica, política, educacional, emocional, espiritual etc.) e em escala global tem tudo a ver com esse despertar em massa. O sistema atual baseado na heteronomia não pode suportar tantas mentes autônomas. Ele logo irá ruir naturalmente, à medida que as pessoas compitam menos e cooperem mais. A caridade já começa a entrar em cena e a corrupção a ficar fora de moda. A busca por um mundo mais fraterno e sustentável já faz com que as desigualdades e preconceitos se desfaçam, fazendo da liberdade mais do que mera teoria. O privilégio está progressivamente sendo substituído por mérito pessoal – todos têm acesso ao que seus interesses e qualificações lhes permitam fazer. O amor começa a prevalecer.

Espero que agora os pontos iniciais deste artigo sejam mais bem compreendidos, de forma que vale a pergunta: sua prática espiritual é mais parecida com religião (heteronomia) ou com espiritualidade (autonomia)? Vamos discutir a espiritualidade mais profundamente, então?

Estritamente falando, qualquer pessoa que acredita que existe algo mais do que o que pode ser percebido com os cinco sentidos físicos básicos (materialismo) é um espiritualista, independentemente do que seja esse “algo mais”. Neste estudo, entretanto, quero propor uma distinção entre religião e espiritualidade baseada nos conceitos de heteronomia e autonomia, respectivamente. Assim, um espiritualista que não questiona suas próprias crenças é na verdade uma pessoa religiosa que não sabe o quão religioso realmente é. Um ateu racional aberto à possibilidade de existência de dimensões não físicas pode ser mais espiritualista do que a maioria daqueles que se consideram espiritualistas, segundo minhas observações apresentadas na introdução deste texto. O espiritualismo tem apenas uma conexão com a religião, que é a restauração se seu significado original, o de religare – sem intermediários (santos, deidades e outros personagens).

A espiritualidade é uma experiência pessoal de autoconhecimento e melhoria íntima. Ela não pode ser aprendida sem ser experienciada em um nível holístico – não é teórica, mas prática, lúcida e consciente. Os verdadeiros espiritualistas empregam mente e coração para se conectarem à verdade e se renovarem, reinventarem diariamente. É um trabalho árduo, envolvendo muito mais do que conceitos do mundo espiritual. Não basta parecer espiritualista, é necessário demonstrar por ações concretas e transformações reais. O melhoramento íntimo não ocorre pelo cumprimento de atividades redentoras ou desígnios morais específicos, mas por uma maior competência e vivência ética – que é, em si, conexão com a verdade. Enquanto os religiosos rezam para receber concessões de várias naturezas, os espiritualistas clamam por apoio e/ou orientação para que eles mesmos possam perceber e realizar reformas internas para se tornarem seres melhores (um é impotente e passivo, o outro é forte e ativo). Os espiritualistas são empreendedores por natureza, realizando no mundo os vários “chamados interiores”.

Qualquer prática espiritual não seguida por um profundo efeito transformador de natureza ética é simplesmente uma máscara psicológica, um “escape espiritual (spiritual bypass)”. Repito: o progresso no caminho da espiritualidade requer trabalho árduo. Não basta simplesmente acender incensos ou assistir a palestras no fim de semana. Não basta fazer um workshop ou praticar meditação em meio à natureza. Todas essas coisas têm seu propósito, mas não substituem o trabalho que você e somente você precisa fazer. Pode-se optar por começar hoje ou amanhã. Pode-se optar por iniciar nesta vida ou noutras. Pode-se optar por conduzir o trabalho neste planeta ou outro, mas não há como efetuar terceirizações porque o trabalho espiritual é inerentemente autônomo.

Espero que este texto tenha ajudado você a acessar novas conexões com a verdade. Considero tudo o que escrevo como obra de caridade para espalhar amor, esperança e compreensão na Terra e é sempre bom saber como o texto tocou sua vida. Trouxe-lhe esperança ou paz? Quem sabe felicidade, entusiasmo? Compartilhando um breve comentário você auxilia a avaliar os conceitos aqui propostos e o valor de tais artigos. Paz, justiça e liberdade a todos!

Rodolfo Oliveira
Membro do Círculo

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Participe da conversa 19 Comentários

  • Danielle R disse:

    Gratidão pelas palavras…

  • MARA DE AQUINO disse:

    Adorei o artigo, Rodolfo!!! Cada um tem uma fagulha Divina dentro de si e cada um intui como chegar ao Todo … mas todos estamos no mesmo caminho, no mesmo propósito. Se estamos num mundo 3D é porque as lições a serem aprendidas são em 3D, ou seja, na prática de nosso dia a dia, com ações também físicas podemos e devemos demonstrar nossa “Espiritualidade”. Gratidão por suas palavras!!

  • Andressa disse:

    Gratidão por seu texto! Acredito que quem busca sobre o que é ser espiritualista é porque já não se encaixa mais em religião alguma. Seu Eu Interior pede por respostas, que não encontra em outro lugar além de dentro de si mesmos. Para mim foi muito esclarecedor, e vem de encontro com o que acredito. Que continuemos firmes na busca!

    • torodolfo1 disse:

      Perfeita a sua explanação! ” (…) não encontra em outro lugar além de dentro de si mesmos” tem muito a ver com o que venho construindo atualmente – o conhecimento do que denomino “autonomia” como estado consciencial. Abraço!

  • Carolina Peixoto disse:

    Um dos melhores textos que já li. Muito esclarecedor e consistente. Escrita e argumentos perfeitos. Gratidão imensa!

  • Geiza Adriana disse:

    Imensamente grata por ler esse texto, além de explicar de forma clara o que pesquisei O que é Espiritualista, aprendi várias informações adicionais que me fizeram pensar e se voltar para dentro de mim e ver onde me encaixo atualmente…perfeito para pensar e assim melhorar cada dia mais.Gratidão por ser tão esclarecedor, fornecer fonte para estudo e cada vez mais quero ser espiritualista na prática com profundidade e consciência. Obrigada por trazer esse texto inspirador.

  • Thais Yoshida Paschoal disse:

    Muito bom! Bom conteúdo e escrita fluída!

  • Jane Marcon disse:

    Bom dia!
    Muito pertinente este artigo…chamou – me a repensar e questionar minhas ações…Paz e luz para você amigo.

  • geraldo.pavan disse:

    Gratidão pela divulgação do seu texto, colocou mais luz em meus estudos.

  • nico disse:

    Rodolfo, Fantástico seu Artigo. Bateu como um sino nesse meu atual momento. Valeu!

  • wellington disse:

    Rodolfo parabenizo você por trazer esse questionamento. Digo, para mim, que ainda é cedo para dizer que sou um espiritualista, mas,posso dizer, que há uma semente germinando dentro e querendo se transformar num brotinho. É tão dificil saber o significado de espiritualidade que evito entrar em questionamento. Como diz a galera do Círculo: se fossemos tão bons quanto pensamos ser, não estávamos por aqui fazendo hora extra. Estaríamos em outro planeta mais evoluído.Talvez a tradução mais certa para espiritualidade seja: sempre evoluir com o que aprendemos ou com o que nos ensinam.

    • torodolfo1 disse:

      Obrigado ,Wellington! E já que esta,os fazendo hora extra vamos botar a mão na massa, não é mesmo! Abraço.

      • Desculpa, mas vc está equivocado. Não fale por meia dúzia de pessoas que vc conhece. Ninguém acorda e vira espiritualista, isso não existe! Esses sim, são os q vc descreveu. Só que vc generalizou. Ser espiritualista é um processo que sempre começa com um questionamento. Depois, vários questionamentos e vc vai em busca de respostas. De várias respostas. Aquelas as quais as das religiões já não te satisfazem mais. E geralmente buscamos essas respostas fora do viés religioso, como foi meu caso. Não confunda as coisas e nem generalize.

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