Cidadão de Júpiter

O tema da pluralidade dos mundos habitados é tradado em O Evangelho Segundo o Espiritismo, em A Gênese como também foi pauta de inúmeras matérias dos periódicos de Kardec. Chama a atenção uma curiosa matéria do Jornal de Estudos Psicológicos, da Revista Espírita, de agosto de 1858. Nela, o codificador da doutrina dos espíritos apresenta uma entrevista com um espírito encarnado no planeta Júpiter. Através do médium Victorien Sardou, Kardec entrevista o ceramista Bernard Palissy, agora encarnado em Júpiter. O cidadão ex-terrestre agora é um “extraterrestre”. Palissy, estando encarnado no maior planeta do sistema solar, passa a descrever através do médium a vida no gigante planetário, considerado um Mundo Feliz, segundo a sua escala dos mundos.

As propriedades da comunicação são tão impressionantes que, não possuindo o médium qualquer afinidade artística, Victorien Sardou desenha mediunicamente o que seria a fachada de uma residência no planeta. Desenho que aqui reproduzimos a título de análise e curiosidade.

 

Para nossa reflexão, transcrevo abaixo a entrevista realizada por Kardec, que durou 9h, e publicada na Revista Espírita – Jornal de estudos psicológicos – 1858, edição de Abril, seção Palestras familiares de além-túmulo sub o título Descrição de Jupíter, de 9 de março de 1858, pelo espírito Bernard Palissy, através da mediunidade de Victorien Sardou.

1. Para onde foste ao deixar a Terra?
Ainda me demorei nela.

2. Em que condições estavas aqui?
Sob o aspecto de uma mulher amorosa e dedicada. Era uma simples missão.

3. Essa missão durou muito?
Trinta anos.

4. Lembras-te do nome dessa mulher?
Era obscuro.

5. Agrada-te a estima em que são tidas as tuas obras? Isto te compensa os sofrimentos que suportaste?
Que me importam as obras materiais de minhas mãos? O que me importa é o sofrimento que me elevou.

6. Com que fim traçaste, pela mão do Sr. Victorien Sardou os admiráveis desenhos que nos deste sobre o planeta Júpiter, onde habitas?
Com o fim de vos inspirar o desejo de vos tornardes melhores.

7. Tendo em vista que vens com frequência a esta Terra que habitaste várias vezes, deves conhecer bastante o seu estado físico e moral para estabelecer uma comparação entre ela e Júpiter. Pediríamos que nos elucidasses sobre diversos pontos.
Ao vosso globo venho apenas como Espírito. O Espírito não tem mais sensações materiais.

ESTADO FÍSICO DO GLOBO

8. Pode-se comparar a temperatura de Júpiter à de uma de nossas latitudes?
Não. Ela é suave e temperada; é sempre igual, enquanto a vossa varia. Lembrai-vos dos Campos Elíseos, cuja descrição já vos fizeram.

9. O quadro que os Antigos nos deram dos Campos Elíseos seria resultado do conhecimento intuitivo que eles tinham de um mundo superior, tal como Júpiter, por exemplo?
Do conhecimento positivo. A evocação permanecia nas mãos dos sacerdotes.

10. A temperatura, como aqui, varia conforme a latitude?
Não.

11. Segundo os nossos cálculos, o Sol deve aparecer aos habitantes de Júpiter em tamanho muito pequeno e, consequentemente, dar muito pouca luz. Podes dizer-nos se a intensidade da luz é ali igual à da Terra ou se é menos forte?
Júpiter é cercado de uma espécie de luz espiritual, em relação com a essência de seus habitantes. A luz grosseira de vosso Sol não foi feita para eles.

12. Há uma atmosfera?
Sim.

13. A atmosfera de Júpiter é formada dos mesmos elementos que a atmosfera terrestre?
Não. Os homens não são os mesmos. Suas necessidades mudaram.

14. Lá existe água e mares?
Sim.

15. A água é formada dos mesmos elementos que a nossa?
Mais etérea.

16. Há vulcões?
Não. Nosso globo não é atormentado como o vosso. Lá a Natureza não teve suas grandes crises. É a morada dos bem-aventurados. Nele, a matéria quase não existe.

17. As plantas têm analogia com as nossas?
Sim, mas são mais belas.

ESTADO FÍSICO DOS HABITANTES

18. A conformação do corpo dos seus habitantes tem relação com a nossa?
Sim, ela é a mesma.

19. Podes dar-nos uma ideia de sua estatura, comparada com a dos habitantes da Terra?
Grandes e bem proporcionados. Maiores que os vossos maiores homens. O corpo do homem é como o molde de seu espírito: belo, onde ele é bom. O envoltório é digno dele: não é mais uma prisão.

20. Lá os corpos são opacos, diáfanos ou translúcidos?
Há uns e outros. Uns têm tal propriedade, outros têm outra, conforme a sua finalidade.

21. Compreendemos isto em relação aos corpos inertes. Mas nossa pergunta refere-se aos corpos humanos.
O corpo envolve o Espírito sem ocultá-lo, como um tênue véu lançado sobre uma estátua. Nos mundos inferiores, o envoltório grosseiro oculta o Espírito aos seus semelhantes. Mas os bons nada mais têm a ocultar: cada um pode ler no coração dos outros. Que aconteceria se assim fosse aqui?

22. Lá existe diferença de sexo?
Sim, há por toda parte onde existe a matéria; é uma lei da matéria.

23. Qual é a base da alimentação dos habitantes? É animal e vegetal como aqui?
Puramente vegetal. O homem é o protetor dos animais.

24. Disseram-nos que parte de sua alimentação é extraída do meio ambiente, cujas emanações eles aspiram. É verdade?
Sim.

25. Comparada com a nossa, a duração da vida é mais longa ou mais curta?
Mais longa.

26. Qual é a duração média da vida?
Como medir o tempo?

27. Não podes tomar um dos nossos séculos como termo de comparação?
Creio que mais ou menos cinco séculos

28. O desenvolvimento da infância é proporcionalmente mais rápido que o nosso?
O homem conserva sua superioridade: a infância não comprime a inteligência nem a velhice a extingue.

29. Os homens são sujeitos a doenças?
Não estão sujeitos aos vossos males.

30. A vida está dividida entre o sono e a vigília?
Entre a ação e o repouso.

31. Poderias dar-nos uma ideia das várias ocupações dos homens?
Teria que falar muito. Sua principal ocupação é o encorajamento dos Espíritos que habitam os mundos inferiores, a fim de que perseverem no bom caminho. Não havendo entre eles infortúnios a serem aliviados, vão procurá-los onde esses existem: são os bons Espíritos que vos amparam e vos atraem para o bom caminho.

32. Lá são cultivadas algumas artes?
Lá elas são inúteis. As vossas artes são brinquedos que distraem as vossas dores.

33. A densidade específica do corpo humano permite ao homem transportar-se de um a outro ponto, sem ficar, como aqui, preso ao solo?
Sim.

34. Existem lá o tédio e o desgosto da vida?
Não. O desgosto da vida origina-se no desprezo de si mesmo.

35. Sendo o corpo dos habitantes de Júpiter menos denso que os nossos, é formado de matéria compacta e condensada ou vaporosa?
Compacta para nós, mas não para vós. Ela é menos condensada.

36. O corpo, considerado como feito de matéria, é impenetrável?
Sim.

37. Os habitantes têm, como nós, uma linguagem articulada?
Não. Há entre eles a comunicação pelo pensamento.

38. A segunda vista é, como nos informaram, uma faculdade normal e permanece entre vós?
Sim. O Espírito não conhece entraves. Nada lhe é oculto.

39. Se nada é oculto ao Espírito, conhece ele o futuro? (Referimo-nos aos Espíritos encarnados em Júpiter).
O conhecimento do futuro depende do grau de perfeição do Espírito: isto tem menos inconvenientes para nós do que para vós; é-nos mesmo necessário, até certo ponto, para a realização das missões de que nos incumbem. Mas dizer que conhecemos o futuro sem restrições seria nivelar-nos a Deus.

40. Podeis revelar-nos tudo quanto sabeis sobre o futuro?
Não. Esperai até que tenhais merecido sabê-lo.

41. Comunicai-vos mais facilmente que nós com os outros Espíritos? 
Sim; sempre. Não existe mais a matéria entre eles e nós.

42. A morte inspira o mesmo horror e pavor que entre nós?
Por que seria ela apavorante? Entre nós já não existe o mal. Só o mau se apavora ante o seu último instante. Ele teme o seu juiz.

43.Em que se transformam os habitantes de Júpiter depois da morte?
Crescem sempre em perfeição, sem passar por mais provas.

44. Não haverá em Júpiter Espíritos que se submetam a provas a fim de cumprir uma missão?
Sim, mas não é uma prova. Só o amor do bem os leva ao sofrimento.

45. Podem eles falhar em sua missão?
Não, porque são bons. Só existe fraqueza onde há defeitos.

46. Poderias nomear alguns dos Espíritos habitantes de Júpiter que tenham desempenhado uma grande missão na Terra?
São Luís.

47. Não poderias nomear outros?
Que vos importa? Há missões desconhecidas, cujo objetivo é a felicidade de um só. Por vezes são as maiores e as mais dolorosas.

DOS ANIMAIS

48. O corpo dos animais é mais material que o dos homens?
Sim. O homem é o rei, o deus planetário.

49. Há animais carnívoros?
Os animais não se estraçalham mutuamente. Vivem todos submetidos ao homem e se amam entre si.

50. Há porém animais que escapam à ação do homem, assim como os insetos, os peixes e os pássaros?
Não. Todos lhe são úteis.

51. Disseram-nos que os animais são os operários e os capatazes que executam os trabalhos materiais, constroem as habitações etc. É exato?
Sim. O homem não mais se rebaixa para servir ao semelhante.

52. Os animais servidores estão ligados a uma pessoa ou família, ou são tomados e trocados à vontade, como aqui?
Todos estão ligados a uma família particular. Vós mudais à procura do melhor.

53. Os animais servidores vivem em escravidão ou no estado de liberdade? São uma propriedade, ou podem, à vontade, mudar de patrão?
Estão no estado de submissão.

54. Os animais trabalhadores recebem alguma remuneração por seus trabalhos?
Não.

55. As faculdades dos animais são desenvolvidas por uma espécie de educação?
Eles as desenvolvem por si mesmos.

56. Têm os animais uma linguagem mais precisa e caracterizada que a dos animais terrenos?
Certamente.

ESTADO MORAL DOS HABITANTES

57. As habitações de que nos deste uma mostra nos teus desenhos estão reunidas em cidades como aqui?
Sim. Aqueles que se amam se reúnem. Só as paixões estabelecem a solidão em torno do homem. Se o homem ainda mau procura o seu semelhante, que é para ele um instrumento de dor, por que o homem puro e virtuoso deveria fugir de seu irmão?

58. Os Espíritos são iguais ou de várias graduações?
De diversos graus, mas da mesma ordem.

59. Pedimos que te reportes especialmente à escala espírita que demos no segundo número da Revista e que nos digas a que ordem pertencem os Espíritos encarnados em Júpiter.
Todos bons, todos superiores. Por vezes o bem desce até o mal; entretanto, o mal jamais se mistura com o bem.

60. Os habitantes formam diferentes povos como aqui na Terra?
Sim, mas todos unidos entre si pelos laços do amor.

61. Sendo assim, as guerras são desconhecidas?
Pergunta inútil.

62. O homem poderá chegar, na Terra, a um tal grau de perfeição que a guerra seja desnecessária?
Ele chegará a isto, sem a menor dúvida. A guerra desaparecerá com o egoísmo dos povos e à medida que melhor seja compreendida a fraternidade.

63. Os povos são governados por chefes?
Sim.

64. Em que consiste a autoridade dos chefes?
No seu grau superior de perfeição.

65. Em que consiste a superioridade e a inferioridade dos Espíritos em Júpiter, de vez que todos são bons?
Eles têm maior ou menor soma de conhecimentos e de experiência; depuram-se à medida que se esclarecem.

66. Como aqui na Terra, lá existem povos mais ou menos avançados que outros?
Não, mas entre os povos há diversos graus.

67. Se o povo mais adiantado da Terra fosse transportado para Júpiter, que posição ocuparia?
A que entre vós é ocupada pelos macacos.

68. Lá os povos se regem por leis?
Sim.

69. Há leis penais?
Não há mais crimes.

70. ─ Quem faz as leis?
Deus as fez.

71 Há ricos e pobres? Por outras palavras: há homens que vivem na abundância e no supérfluo e outros a quem falta o necessário?
Não. Todos são irmãos. Se um possuísse mais do que o outro, com esse repartiria; não seria feliz quando seu irmão fosse necessitado.

72. De acordo com isso, as fortunas de todos seriam iguais?
Eu não disse que todos são igualmente ricos. Perguntaste se haveria gente com o supérfluo enquanto a outros faltasse o necessário.

73. As duas respostas se nos afiguram contraditórias. Pedimos que estabeleças a concordância.
A ninguém falta o necessário; ninguém tem o supérfluo. Por outras palavras, a fortuna de cada um está em relação com a sua condição. Estais satisfeito?

74. Agora compreendemos. Mas te perguntamos, entretanto, se aquele que tem menos não é infeliz em relação àquele que tem mais?
Ele não pode sentir-se infeliz, se não é invejoso nem ciumento. A inveja e o ciúme produzem mais infelizes que a miséria.

75. Em que consiste a riqueza em Júpiter?
Em que isto vos importa?

76. Há desigualdades sociais?
Sim.

77. ─ Em que estas se fundam?
Nas leis da sociedade. Uns são mais adiantados que outros na perfeição. Os superiores têm sobre os outros uma espécie de autoridade, como um pai sobre os filhos.

78. As faculdades do homem são desenvolvidas pela educação?
Sim.

79. Pode o homem adquirir bastante perfeição na Terra para merecer passar imediatamente a Júpiter?
Sim. Mas na Terra o homem é submetido a imperfeições a fim de estar em relação com os seus semelhantes.

80. Quando um Espírito deixa a Terra e deve reencarnar-se em Júpiter, fica errante durante algum tempo, até encontrar o corpo a que se deve unir?
Fica errante durante algum tempo, até que se tenha livrado das imperfeições terrenas.

81. Há várias religiões?
Não. Todos professam o bem e todos adoram um só Deus.

82. Há templos e um culto?
Por templo há o coração do homem; por culto, o bem que ele faz.

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