Como superar o trauma religioso

trauma religioso

Precisamos transcender e sair do rebanho de qualquer espaço que controle a liberdade e autonomia filosófica do indivíduo com fundamentalismo, dogmas e o autoritarismo.

Nos últimos anos, tivemos a oportunidade de ver na mídia alguns casos famosos de líderes religiosos e gurus espirituais que foram denunciados por abusos aos seus seguidores. Eu não acredito que a ocasião faz o ladrão, ela apenas o revela. Na maior parte das vezes, são pessoas com oratória excelente, que geram uma aura de admiração, o que é natural e pode ser bom. Afinal, nosso planeta recebe avatares que nos entregam pérolas de luz.

Só que, ao mesmo tempo, se cria uma dependência intelectual do líder ou guru e a pessoa abre mão da autonomia, terceiriza seu pensar e confia cegamente. E esses abusos não precisam estar necessariamente em uma igreja ou religião, basta que o fundamentalismo, o dogma e o autoritarismo invadam o espaço de liberdade e autonomia das pessoas.

Já ouvir falar na Síndrome do Trauma Religioso?

Pois hoje vamos estudar alguns trechos de uma entrevista com a psicóloga norte-americana Marlene Winell, educadora e escritora, com 35 anos de experiência, que escreveu o livro Leaving the Fold: A Guide for Former Fundamentalists and Others Leaving their Religion (Saindo do Rebanho: Um guia para ex-fundamentalistas e pessoas que se afastaram da sua religião), em tradução livre, pois o livro ainda não foi editado em português.

Marlene viveu a experiência de sair de uma estrutura de abuso religioso e, como psicóloga, cunhou o termo “Síndrome do Trauma Religioso” para classificar sintomas de pacientes que sofrem de transtornos mentais em decorrência da doutrinação de suas crenças. Para ela, “religião é algo que não deve ser ensinado para crianças e o fundamentalismo rouba a identidade das pessoas”.

Vamos começar pela definição da Marlene da Síndrome do Trauma Religioso:

“É a condição vivida por pessoas que estão lutando para sair de uma religião autoritária, dogmática e sofrendo os danos dessa doutrinação. Eles podem estar passando por um momento de quebra de conceitos e de paradigmas pessoais ou rompendo com uma comunidade ou estilo de vida controlador”.

Vejamos alguns termos: autoritária – porque o líder manda e você obedece; dogmática – o líder ou a religião ditam o que é verdade e você tem que acreditar. Sofrendo os danos… – acreditar em uma série de coisas vai causando estreiteza de pensamentos, e quando a pessoa rompe com essa comunidade em torno da qual a vida dela girava tem problemas para encontrar sua identidade.

A autora ainda compara os sintomas com o Transtorno de Estresse Pós-Traumático. Ela também cita “pensamentos intrusivos”, o que, para quem tem conhecimento de mediunidade e obsessão, sabe muito bem do que está se falando.

Na entrevista, Marlene responde que trabalha na área de “recuperação da religião”, e eu posso dizer que atuo na mesma área.

Honro todo o conhecimento da tradição e filosofia que a religião conservou por muito tempo para que hoje tivéssemos a liberdade de pensar. Mas, ao mesmo tempo, não vejo futuro no institucionalismo religioso. Vejo como uma torre que vai cair com base na autonomia filosófica e na liberdade espiritual. E isso é uma das novidades do tempo da regeneração, do novo mundo, da era de aquário. Precisamos superar a religião. Honrar tudo que trouxe de bom, mas vamos precisar sair dessa jaula.

Como reconhecer a Síndrome? Segundo Marlene:

“Alguns sintomas-chave são confusão mental, dificuldade em tomar decisões e pensar por si mesmo, falta de sentido ou direção na vida, baixa autoestima, ansiedade de estar no mundo, ataques de pânico, medo da condenação, depressão, pensamentos suicidas, distúrbios do sono e alimentares, abuso de substâncias, pesadelos, perfeccionismo, desconforto com a sexualidade, imagem corporal negativa, problemas de controle de impulso, dificuldade de desfrutar o prazer ou estar presente aqui e agora, raiva, amargura, traição, culpa, sofrimento e perda, dificuldade em expressar emoções, ruptura da rede familiar e social, solidão, problemas relacionados com a sociedade e questões de relacionamento pessoal.”

Observem que são todos sintomas comuns, muitos que eu vivi e outros que vi amigos passarem por eles. E toda a estrutura institucional que tem ordem estabelecia corre esse risco. Ela também compara o trauma religioso com o abuso sexual na infância, isso porque as consequências são muito parecidas.

Sobre o tratamento

 “Há alguma semelhança com o vício de drogas no sentido em que as pessoas tentam encontrar formas de evitar a responsabilidade por suas vidas e a recuperação é difícil porque requer que você enfrente este problema.”

Ou seja, as pessoas foram doutrinadas a não serem responsáveis pela própria vida. A culpa é sempre do diabo ou do obsessor. E o mérito também nunca é delas, é de Deus.

Como as vítimas podem se reconhecer?

Ela compara com a violência doméstica sofrida por mulheres, em que a vítima sente que a culpa é sua e tende a permanecer na situação. Então, se você está passando por uma fase em que sente não caber mais em uma estrutura religiosa, busque informação, amplie seus horizontes. Novas perspectivas geram expansão de consciência que nos leva à integração com as forças do universo, e essa integração desperta em nós o sentido de construir um mundo melhor.

“Na verdade, a pessoa passa por um período de confusão sobre isso porque ela foi ensinada a formar sua identidade pessoal a fim de identificar-se com Deus e considerar apenas Deus como algo bom e valioso. Normalmente, eles acreditam que são pecadores desde o nascimento e precisam ser salvos, portanto, não veem nenhum valor além da graça de Deus.”

O dogma rouba a nossa identidade, porque dogma é padronização. Mas uniformidade não é unidade, é o oposto de identidade.

E o que são práticas espirituais saudáveis?

“Grupos que reúnem pessoas e promovem o autoconhecimento e crescimento pessoal podem ser considerados saudáveis. Esses grupos colocam alto valor no respeito às diferenças e os membros se sentem empoderados como indivíduos. Eles oferecem apoio social, lugar para eventos e ritos de passagem, troca de ideias, inspiração, oportunidades de serviço e conexão com as causas sociais. Eles incentivam as práticas espirituais que promovem a saúde, como a meditação ou princípios para viver como regra de ouro.”

Modéstia à parte, ela está descrevendo o Circulo! Não somos religião, somos uma escola filosófica, mas temos a espiritualidade como um dos eixos.

“Sim, o trauma religioso é transmitido e na mesma maneira que os outros tipos de abuso, tende a ser repetido.”

O esforço de sair da estrutura de dominação é muito grande para quem decide se tornar livre pensador espiritualizado. Se você está passando por isso, sua responsabilidade é enorme, para que o trauma morra em você e não passe para as novas gerações.

 “Eu sei que há crescimento de algumas igrejas em alguns países, mas nos Estados Unidos o grupo populacional que mais cresce é o de não crentes.”

Aqui nesse ponto faço uma contribuição, pois segundo pesquisas do últimos anos, o grupo que mais vai crescer no mundo até 2050 é o de “non believers”. São não religiosos, mas que não são descrentes ou ateus necessariamente. E isso é sinônimo de aumento da autonomia filosófica.

E o mais interessante é que o que moveu a Marlene a fazer esse trabalho foi a própria experiência em uma religião fundamentalista, em que até mesmo dançar era pecado. Para finalizar, ela cita na entrevista as etapas de recuperação do trauma religioso, que trata em consultório há mais de 20 anos: “separação, confusão, negação, sentimento e reconstrução, até recuperar o senso de si mesma e descobrir quem realmente é”.

Aqui segue o link original da matéria para acessar a íntegra.

Abraço grande,

Sempre avanti! Che questo è lá cosa piú importante!

Juliano Pozati


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